Relato de um piloto que conquistou FIRE e deixou de voar...

   Essa semana me deparei com um post fantástico em um fórum na internet para pilotos profissionais, apesar do autor ser anônimo ele foi claramente escrito por um piloto que assim como eu decidiu seguir o caminho da independência financeira e aposentadoria antecipada por não aguentar mais o estilo de vida da nossa profissão. Nesse post ele relata seu primeiro anos após deixar o emprego como piloto no Oriente Médio e quais desafios enfrentou.


   Imagino que para você meu caro leitor, o relato dele não bata tão fundo quanto bateu em mim pois não tem a noção real dos desafios que a profissão de piloto (assim como tantas outras) exige, porém assim como no meu caso fica nítido que a privação do sono e a falta do convívio familiar causou danos profundos na vida pessoal desse indivíduo e como até hoje ele tenta se recuperar. Não é por coincidência que as mesma reclamações que ele descreve no texto abaixo são exatamente as mesma que eu descrevi no meu texto “Venha voar com o SR.IF365” onde conto em detalhes como é a minha rotina de trabalho, caso não tenha lido essa meu post sugiro que passe por lá antes de ler o texto abaixo pois tudo fará mais sentido.

   Nosso colega aí em baixo foi inteligente o suficiente para tirar proveito da boa remuneração  que a profissão oferece e seguiu o caminho da independência financeira e aposentadoria antecipada, hoje próximo dos seus 40 anos de idade desfruta de uma vida normal e pelo visto não pensa em voltar a voar nunca mais.





   Segue minha tradução do texto original, que sirva de inspiração para todos nós que sonhamos em ser FIRE um dia.


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   Caros amigos e ex-colegas,

   Faz exatamente um ano desde que eu taxiei a aeronave pela última vez para a posição de parada, acionei os freios de estacionamento e cortei os motores. Eventualmente todos vocês um dia viverão essa mesma experiência e por diferentes razões: talvez você chegou aos 60 ou 65 anos e foi forçado a se aposentar devido a idade avançada, ou seu “balde de paciência” transbordou, ou mesmo seu “balde de dinheiro” está suficientemente cheio e não precisa mais se submeter a esse tipo de trabalho. Independentemente do seu motivo, você vai fechar um capítulo de várias décadas de algo que provavelmente foi uma mistura de paixão arrebatadora com morte lenta ...

   Para mim, esse momento precioso não foi nada a ser lembrado com saudades. Meu único foco durante esse último voo foi apenas não fazer besteira para não ser punido! Ao final tudo que senti foi um alívio enorme e assim que o último passageiro desembarcou apenas corri para o ônibus e nunca mais olhei para trás.

   Antes de entrar em detalhes sobre o primeiro ano longe da vida como piloto, deixe-me reconhecer todo o sofrimento pelo qual nossas esposas são obrigadas a passar quando decidem nos acompanhar por essa jornada.
   - Há algo ainda mais deprimente do que ser piloto de avião no Oriente Médio: é ser esposa de um piloto! Elas sofrem muito com a nossa ausência quando mais necessitam de nós, suportam mudanças de humor terríveis causadas pelos problemas no trabalho, são obrigadas a lidar com maridos no “modo zumbi” dormindo o dia todo depois de uma jornada noturna e nunca se lembrando de nada, as vezes até gritando com as crianças implorando por silêncio pois o pai delas precisa tentar dormir de dia para se preparar para a próxima jornada noturna...
   Você sabe quem você é, eu sei quem você é, e eu admiro profundamente você e amo você por ter enfrentado tantos desafios ao longo dos anos, você tem o meu mais profundo respeito e admiração.


   Pode-se pensar que a liberdade da aposentadoria antecipada (FIRE) foi uma explosão de alegria, mas infelizmente não foi. Eu simplesmente não consegui me diverti naquele primeiro ano, foi difícil, é só quando você para de voar que percebe quanto dano foi causado à sua alma e corpo. Leva muito tempo para o cérebro perceber você não está simplesmente de férias e que terá que voltar ao trabalho. Na verdade toda semana eu penso em voltar a voar, não porque eu gosto, mas sim por causa de algum tipo de "síndrome de Estocolmo" ou simplesmente porque voar era a única coisa que minha vida girava em torno (é impossível separar a vida profissional da vida pessoal quando literalmente se passa a maior parte do seu tempo no trabalho, seja dentro de um avião ou de um quarto de hotel longe do convívio familiar).

Deixe-me entrar em detalhes sem tabus e em nenhuma ordem específica


   1) Sono

   Demorei cerca de 8 meses para voltar aos padrões normais de sono. Antes disso, eu acordava todas as noites por volta das 02:00 - 03:00 da manhã pensando que eu havia perdido a hora para ir trabalhar. Outras vezes eu acordava pensando que tinha caído no sono dentro da cabine durante o voo de cruzeiro em algum lugar sobre o Oceano Índico em época de monção e com o rádio sem funcionar... Hoje um ano depois, vou para a cama por volta das 21h30 e acordo por volta das 8h após uma boa noite de sono, depois do almoço normalmente ainda tiro uma soneca de 1h e me sinto melhor doque nunca.

   Demorou 8 meses para me sentir normal novamente e isso me fez perceber que não tínhamos chance de nos recuperarmos durante as nossas três semanas de férias anuais.


   2) Saúde Mental

   Esse é provavelmente o maior tabu na indústria da aviação e é ainda pior na cultura árabe. Você pode observar em si mesmo e nos colegas de trabalho ao seu redor como é difícil suportando a degradação mental que o trabalho impões sem saber como lidar com isso, na verdade nenhum médico tem idéia de como lidar com isso, ninguém oferece uma solução mesmo se você estiver gritando por ajuda!

   Notei muito isso quando ainda era co-piloto e voava com alguns comandantes: eles estavam mentalmente quebrados, mas nenhum médico da aviação jamais ousaria diagnosticar isso...

   Foi particularmente doloroso ver comissárias tendo colapsos nervosos no trabalho sem ajuda à vista, meninas de vinte e poucos anos completamente destruídas mentalmente ...
Tantos tripulantes adotando comportamentos auto-destrutivos com drogas, álcool, etc… tudo para suportar a rotina de trabalho.

   Meu mecanismo de enfrentamento foi comer (chocolate) e ainda não perdi meus 15 kg de gordura.

   Eu tive dificuldades com minha saúde mental e os primeiros 2-3 meses longe do trabalho foram realmente duros. Tive sintomas parecidos com o “transtorno de estresse pós-traumático” encontrado por soldados que voltavam da zona de combate. Muitas vezes eu senti a culpa de ter abandonado o meu “pelotão” deixando-os fazer todos os vôos noturnos ​​enquanto eu estava dormindo pacificamente na minha cama.

   Os poucos médicos “especialistas” que conheci disseram a mesma coisa: “é preciso muito tempo para se recuperar de um esgotamento”. Um deles disse - “para finalizar o processo de cura, você terá que voltar a voar eventualmente!” (Obrigado, mas não, obrigado ...)
Um ano depois, sinto-me melhor, mas com a desconfortável impressão de que algumas das minhas células cerebrais se perderam para sempre no oceano Índico.


   3) Saúde Física

   Melhorou, lentamente, mas melhorou, não ficar amarrado a um assento durante um dia inteiro faz uma grande diferença, andar um pouco todos os dias, fazer algumas tarefas simples, cortar madeira, fazer trabalhos em marcenaria, etc… tudo ajuda muito. Eu ainda não adotei uma rotina de exercícios físicos devido à falta de disciplina, mas estou trabalhando nisso. Minha dieta melhorou (não como mais “comida de avião”), não sofro mais com a radiações e ar contaminado da aeronave.

   A verdade é que a indústria da aviação é nociva, os dedos de uma mão não são suficientes para contar o número dos meus colegas de trabalho que morreram próximos dos 50 anos de idade nos últimos 10 anos. Este trabalho é um assassino lento e silencioso, mas "o show deve continuar". Continuar a voar depois dos 50 reduz drasticamente a sua expectativa de vida, vale a pena?


   4) Vida Sexual

   Bem, mencionei na introdução que iria falar de “tabus" então aqui vamos nós!

   A falta de sono e stress levou a minha vida sexual quase a zero: era muito difícil conseguir uma ereção. A única coisa positiva sobre isso é que as pouquíssimas vezes que uma comissária de bordo estava “dando em cima de mim” isso teve zero efeito já que eu tinha zero desejos sexuais, então não trair minha amada esposa nunca foi um desafio.

   Demorou 5 a 6 meses para voltar a uma vida sexual normal (deixarei que você defina sozinho o que é uma vida sexual normal ...)


5) Vida Social

   A vida social era inexistente devido ao cansaço e às horas malucas de trabalho, as poucas pessoas que faziam porte do nosso círculo de amizades e estavam com energia para sair eram geralmente outros pilotos falando inevitavelmente sobre coisas de piloto (coitadas das nossas esposas, conversa de avião é muuuuito chata para todos os outros).

   Hoje, não há um único piloto em nosso ambiente social e isso é ótimo, apenas “pessoas normais” com empregos normais, que dormem em suas próprias camas todas as noites e sem mais aquelas histórias egocêntricas que pilotos gostam de contar.

   Não ser mais chamado de “comandante” em cada sentença é ótimo e eu posso finalmente ser eu de novo, um cara simples do interior. Eu mantive alguns dos meus uniformes antigos e vou usá-los para o Halloween ou para fazer serviços de jardinagem no meu quintal.


6) Vida Financeira

   Gastamos uma parte muito grande de nossas vidas trabalhando no Oriente Médio: estávamos lá para economizar dinheiro para depois voltarmos para casa e nos aposentarmos. Decidimos então não inflacionar nosso estilo de vida (nada Starbucks Latte, nada de empregada doméstica, motorista, jardineiro ou faxineira), assim consegui economizar cerca de 60% do meu salário isento de impostos todos os meses. Seguimos estratégias simples que estão disponíveis gratuitamente na internet (Andrew Hallam, o professor milionário ou o portfólio Turner 60/40 da Garth). Escapamos de todos os tubarões oportunistas que vendem investimentos e seguros de vida que escondem altas taxas de administração e que levam você a lugar nenhum. Focamos em um portfólio auto gerenciado e simples.

   Depois que parei de voar / trabalhar, nossa renda caiu 75% e nossas despesas caíram pela metade. Vivemos uma vida simples no campo em algum lugar da Europa, temos um jardim, carros usados, mas somos felizes e temos bastante tempo.

   Um dos melhores livros que li sobre finanças é “Your Money or your life”, da Vicki Robin.
A idéia básica é que sua felicidade geral aumentará com sua renda até um certo ponto, passado desse ponto qualquer excesso de dinheiro se tornará completamente sem sentido.
A quantidade de dinheiro que achamos que precisamos aposentar é mais um limiar emocional do que um número mágico. Você saberá que alcançou esse limiar no dia em que percebe que seu tempo vale mais do que qualquer dinheiro ou contrato de trabalho em qualquer parte do mundo. É um sentimento assustador e libertador.

  Abrir mão de um gordo salário mensal foi um verdadeiro ato de fé, mas funcionou bem para nós.


Conclusão

  Esta foi a nossa experiência, muitos dos pilotos com mais de 40 anos de idade provavelmente irão se identificar com essa nossa experiência. Apesar dos desafios de voar no Oriente Médio tenho que confessar que fomos abençoados por viver no melhor país da região, com as melhores pessoas e com praias, montanhas e desertos de tirar o fôlego.

  Levo comigo dos meus 10 anos no Oriente Médio a lembrança de todos os grandes profissionais que conheci do mundo todo: comissários, pessoal de solo, mecânico, pilotos, etc ... Vocês realmente me inspiraram e penso em vocês todos os dias.

"O show tem que continuar..."

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