Decisões FIRE e não FIRE…

   Com a minha transição para a aposentadoria antecipada se aproximando é praticamente impossível não fazer um pequeno balanço pessoal da trajetória até aqui, por coincidência na semana em que enviei o pedido de demissão meu melhor amigo que também é piloto e mora aqui em Dubai me convidou logo cedo para fazer um passeio no barco novo que ele tinha acabado de comprar em sociedade com outros colegas. Não pude ir ao passei porque tinha que trabalhar mas também não pude deixar de refletir à respeito de como na vida tudo é uma questão de escolha, esse é o mesmo amigo que comentou que se pudesse faria o mesmo que eu, porém a filosofia de vida dele é bem diferente da minha, vive bem o hoje ao invés de postergar para amanhã. Me recuso a critica-lo pois não existe o certo nem o errado, ele vive muito bem, aproveita o melhor que a vida pode oferecer e tem uma família maravilhosa.


   A Paula Pant no podcast dela “Afford Anything” resume bem o assunto com a frase que ela utiliza para abrir todos os seus shows, “você pode ter qualquer coisa, mas não pode ter tudo…” ou seja, cada vez que você faz uma escolha necessariamente estará abrindo mão de alguma outra coisa. E isso vale não só para dinheiro como também para tudo mais que seja limitado ou escasso, como por exemplo tempo. Obviamente não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo, dessa forma devemos escolher se iremos gastar tempo trabalhando ou com a família, nos exercitando ou engordando no sofá, etc... Já em se tratando de dinheiro devemos escolher se iremos gastar ou poupar, usufruir dele agora ou no futuro, se matar de trabalhar para ganhar o máximo possível ou pegar leve e ganhar menos. Resumindo não dá para se ter tudo, temos que escolher oque realmente é mais importante para nós.





   Voltando à minha trajetória e as decisões que fiz até o momento acho que no final das contas acertei mais doque errei, claro que se tivesse acertado mais teria me aposentado   ainda mais cedo e se tivesse errado mais não estaria na contagem regressiva para deixar o emprego. Abaixo faço um pequeno balanço de algumas decisões relevantes que tomei ao longo da vida e que me deixaram mais próximo ou mais distante da IF:

   Quando ainda jovem coloquei na cabeça que gostaria de fazer um intercâmbio para um país de língua inglesa. Na época era pura curiosidade e fascínio pelos Estados Unidos, mas ao longo da minha carreira a fluência em inglês que adquiri morando um ano  na casa de uma família americana (apesar da experiência ter sido ruim) me acompanha até hoje e foi um diferencial importantíssimo na minha carreira. Tenho colegas de profissão que até hoje não conseguiram sair do país por conta da dificuldade com a língua inglesa.

   Graças ao destino e a minha indecisão sobre qual carreira seguir, acabei optando por fazer o curso de pilotagem e abrir mão de cursar uma universidade. Foi extremamente difícil convencer minha familia de que eu gostaria de seguir essa profissão, na verdade venho de uma família de “gênios” que cursaram faculdades renomadas como ITA, USP, etc… ao decidir que abriria mão de uma faculdade para seguir carreira na aviação com apenas o segundo grau completo foi como se eu tivesse dito que estava seguindo carreira como ator de teatro!rs Hoje essa foi com certeza a decisão mais importe que me permitiu chegar até aqui.

   Permanecer morando com os pais mesmo tendo condição de alugar um lugar só pra mim. Algumas pessoas não veem a hora de deixar a casa dos pais assim que começam a ganhar o próprio dinheiro, consegui meu primeiro emprego em uma empresa aérea ainda muito cedo, tinha 19 anos e o salário com certeza era mais que suficiente para eu alugar o “meu cantinho”. Mas por incrível que pareça isso nunca me passou pela cabeça, meu relacionamento em família foi sempre muito bom e nuca fui do tipo “adolescente rebelde”, na verdade acho que nunca proferi aquela famosa ameaça que os jovens adoram fazer “um dia eu ainda sumo daqui!”. Então ao invés de inflacionar meu estilo de vida arcando logo de cara com um aluguel em São Paulo acabei ficando pelo interior e morando com eles por mais alguns anos até me casar. Apesar de não ter os números sei que economizei uma bela grana naquela época, dinheiro esse que me permitiu logo depois comprar um pequeno apartamento na cidade vizinha.

   Ainda deslumbrado com meu primeiro emprego na aviação comprei uma bela S-10 zerinha, lógicamente financiada! Esse foi o primeiro erro que me lançou em direção oposta à IF, pra que um jovem de 20 anos precisa de uma S-10 zero? Vai transportar oque na caçamba? Só se for cerveja... Mas a tentação de trocar um Fiat 147 amarelo por uma S-10 preta reluzente falou mais alto. Não lembro quanto paguei por ela mas ainda me recordo dos boletos que nunca acabavam, com certeza foi uma grana jogada no lixo e que se eu pudesse voltar atrás nunca teria feito tal bobagem.

   Agora chegamos à parte que realmente corta meu coração e verdadeiramente me desvirtuou do caminho da IF, casei muito cedo e com a pessoa errada. Fiz festa de arromba e viagem de lua-de-mel que custou o preço de um carro, tudo para satisfazer o desejo da pessoa “amada”. Era uma época em que todos os amigos estavam se casando e parecia a coisa certa a ser feita, sem contar que virou competição entre as mulheres para saber quem conseguia arrancar mais dinheiro do futuro marido para ostentar o casamento mais luxuoso. E o otário aqui caiu nessa! Foi-se mais uma vez uma oportunidade de poupar para o futuro e encurtar consideravelmente minha caminhada rumo à IF.


   Acho que até então eu já tinha desperdiçado uma quantia suficiente de dinheiro que poderia ter me levado à IF uns 3 a 5 anos antes do planejado, mas não satisfeito eu decidi me afundar ainda mais.


   Mesmo morando em um apartamento bem localizado e com um tamanho mais que suficiente para uma pequena família viver confortavelmente decidi que seria a hora de me mudar para uma casa, afinal “quem casa quer casa”. E não podia ser qualquer casa, comprei um terreno monstruoso de 1.000m2 e com uma área dessas não faria sentido construir um “barraco”. Então lá se foi um dois maiores erros financeiros da minha vida, a construção de uma “mansão” de 440m2, um verdadeiro desperdício! Acho que durante o tempo que morei lá devo ter utilizado só o quarto, cozinha, banheiro e sala de TV…. mas mesmo assim me enchia de orgulho quando recebia visitas e gastava quase 10 minutos mostrando os quartos vazios, sala de jantar, quintal, etc… que otário! Mas aí você vai dizer que imóvel é sempre um bom investimento e que eu não deveria contabilizar como algo que me afastou do caminho da IF, isso seria verdade se eu não tivesse feito o terceiro grande “erro” da minha vida que foi terminar meu casamento.

   Eita coisa cara esse negócio de divórcio! Por termos casado com comunhão parcial de bens todo o dinheiro que eu gastei na casa (ela nunca colocou um centavo) teve que ser divido entre os dois, basicamente comprei metade da minha própria casa. Ou seja, nunca terei lucro com esse “empreendimento”, se um dia eu conseguir vender vai no mínimo zerar meu prejuízo. Acho que se tivesse ficado no meu apartamentinho minha IF teria sido adiantada quase 10 anos!

   Após o divórcio tomei outra decisão que foi de suma importância para a conquista da IF, deixei o Brasil e vim trabalhar no exterior. Com um salário 3 vezes maior que no Brasil e podendo guardar próximo de 90% da minha renda eu não só recuperei o tempo perdido como também pisei fundo no acelerador rumo à IF.

   A última decisão que me garantiu a IF e me permitiu jogar a toalha é com certeza a mais polêmica, ela não foi tomada por motivos puramente financeiros mas tem uma relevância enorme não só na conquista como também na manutenção dos meus planos de IF, eu decidi não ter filhos. Sei que muitos irão dizer que fazendo isso estarei abrindo mão da maior alegria que um homem pode ter na vida. Mas essa decisão na minha cabeça é martelo batido, refleti muito sobre o assunto e sei que não irei me arrepender no futuro. Apesar de não carregar nenhum trauma de infância a ideia de ter filhos nunca me agradou, não só por motivos financeiros mas também por uma filosofia própria que eu tenho para encarar a vida, eu poderia escrever um post inteiro sobre esse assunto mas consigo resumir da seguinte forma, para mim não faz sentido colocar um ser humano nesse mundo para nascer, crescer, muito provavelmente sofrer e depois morrer. Prefiro não participar desse “circo de horrores divino”… vejo muito sofrimento por todos os lados e seria egoísmo da minha parte colocar um filho no mundo só para satisfazer o meu desejo de ser pai. Como disse é um assunto polêmico e daria para ser discutido infinitamente, é uma opção pessoal e respeito quem pensa diferente. Essa decisão me dá tranquilidade com relação ao futuro uma vez que não só não precisarei que o dinheiro seja passado para a próxima geração, como também a flexibilidade de em caso de necessidade eu conseguir reduzir meu custo de vida a ponto de poder morar em “baixo da ponte” se tudo der errado praticamente garantem o sucesso dos meus planos.


   Essas foram algumas das decisões mais relevantes que me deixaram mais próximo ou mais distante da independência financeira e aposentadoria antecipada, espero continuar acertando mais doque errando e assim garantir um futuro tranquilo. Infelizmente a gente só enxerga as besteiras que fazemos quando já é tarde, faz parte do jogo e com certeza essa nova etapa da minha vida irá exigir até mais atenção e cuidado nas decisões doque foi até agora.

   O pior é que mesmo tendo praticamente recuperado o tempo perdido quando me mudei para o exterior ainda sim voltei a cometer o erro básico de comprar um carro zero quando cheguei aqui, agora depois de 5 anos vou vende-lo a preço de banana e perder mais de 60% do dinheiro que paguei por ele. Errar é humano, já repetir o erro é burrice!



Sr.IF365