“Daqui pra frente é ladeira abaixo..."

   ***EDITADO EM 5/03****
 
   O título desse post é uma frase que reflete bem como foi a "evolução" do meu padrão de vida nos últimos anos. Já noto à um tempo que por diversos motivos venho reduzindo drasticamente meu padrão de vida e parece que recentemente ele está rolando "ladeira abaixo". Isso não necessariamente quer dizer que minha qualidade de vida piorou também, mas com certeza o “eu” do passado não poderia imaginar que um dia estaria escrevendo esse post de um quartinho de hotel fuleiro em Bali!rs




   Me lembro que até uma certa idade eu estava encantado pela progressão de carreira e ano após ano melhorava meu padrão de vida trocando de carro, mudando para uma casa nova, fazendo viagens caras, etc... A gostosa sensação de poder viver cada vez melhor e com mais conforto era incrível, eu não me incomodava nem um pouco em ter que trabalhar duro para bancar tudo aquilo e aos meus olhos o custo benefício era excelente. Acho que cheguei ao auge do meu padrão de vida quando tinha uns 37 anos de idade, morava em uma casa gigante, o carro era do ano, celular último modelo, empregada para limpar a casa, além de muitas outras comodidades… tudo ia bem até eu começar a me sentir infeliz no trabalho. Foi aí que passei a questionar se trabalhar tão duro por tudo aquilo estava realmente valendo à pena, de uma hora para outra todas aquelas posses materiais e confortos exagerados não só não me traziam mais prazer como ainda me escravizavam à um emprego que me fazia infeliz. Tentando sair daquele ciclo vicioso decidi deixar o país atrás de novos ares e ao mesmo tempo também deixei tudo para trás.



   Do dia para noite deixei de morar em um casa de 440m² e passei a viver em um apartamentinho de 2 quartos nas areias do deserto, não tinha mais empregada e limpava tudo sozinho, lavava roupa, cozinhava e até passava quando tinha saco. Me lembro que nos primeiros dias quando cheguei ao deserto me perguntava “oque é que eu fiz?!?!”, mas aos poucos fui me acostumando e chegou ao ponto onde até lavar e passar a minha própria roupa não era mais tão ruim assim. O apartamento de 2 quartos ficou meio que grande para quem morava sozinho e não entrava mais na minha cabeça o porque um homem divorciado um dia precisou de uma casa de 440m² para viver. É lógico que meu padrão de vida realmente havia caído quando me mudei para o deserto, mas em contrapartida depois que assimilei a nova situação a qualidade de vida é que acabou subindo.


  Correndo minha história cinco anos para frente, logo depois que deixei meu emprego veio a segunda “escala” na descida da ladeira, passei um mês no Brasil morando na casa dos meus pais. Foi uma mistura esquisita de conforto com desconforto, acho que saí de casa quando tinha uns 24 anos e agora com 41 estava de volta… dormi no meu antigo quarto em uma cama pequenininha de solteiro, situação que eu não chamaria de exatamente confortável, ainda mais quando você não é o dono da casa e tem que se submeter à algumas regras do bom convívio familiar. Por um outro lado foi ótimo estar de volta e contar com o conforto da casa que eu já conhecia tão bem… enfim, a adaptação foi fácil e ter meus familiares por perto só ajudou.


   Hoje é meu quarto dia desde que cheguei à Bali e estou passando pelo mesmo choque inicial que sofri quando pisei pela primeira vez no deserto, até agora não teve um único dia em que não me perguntei “oque é que eu fiz?!?!”. Tudo bem que minha escolha de hotel não está ajudando, na verdade me sinto absolutamente enganado pelo Hotels.com uma vez que ainda estando no Brasil decidi que iria ficar em Bali em um hotel mais modesto para economizar dinheiro antes de embarcar para a Australia. Então ao fazer minha pesquisa on-line ordenei todas as opções por preço e procurei por um que fosse 3 estrelas e com um preço convidativo, porém já pelo nome e pelo valor da diária eu deveria saber oque me esperava!rs Por R$47 ao dia é possível se hospedar no Cheap Hotel em Bali, as fotos no site não eram ruins mas quando entrei na rua em que o hotel é localizado e vi a faixada do estabelecimento já me toquei da m3rd@ que eu tinha feito. O lugar é uma espelunca! Não vou perder tempo descrevendo o hotel mas eu daria no máximo 1 estrela para ele…


   Meu caro leitor, não sei como você imagina que Bali seja mas já posso adiantar que se frequentou as praia do nordeste brasileiro isso aqui não irá te impressionar. Meus planos quando me mudei para cá não eram o de viver no paraíso e sim em um lugar relativamente barato e que ainda oferecesse a tranqüilidade de poder andar na rua à noite sem a preocupação de ser assaltado. E nesse sentido Bali ainda oferece isso, mas em contrapartida tenho que aceitar uma cultura completamente diferente e que isso aqui não é exatamente o lugar mais limpo do mundo. A verdade é que meu padrão de vida chegou ao fundo do poço… estão sendo 10 dias morando em um quartinho de hotel fuleiro sem absolutamente nenhum conhecido por perto e cercado por pessoas completamente alheias à minha existência. Já sinto falta do carro que tinha lá no deserto e o conforto de poder ir aonde quiser e a hora que quiser sem precisar depender de táxi. Não está sendo fácil… quando me perguntam sobre como anda meu padrão de vida respondo igual o vídeo abaixo:





   Tenho tentado fazer o melhor que posso com a situação, todas as manhãs (na verdade madrugado por causa da “jet lag”) faço duas horas de caminhada para ver o nascer do sol e depois compro um café da manhã na barquinha da esquina, o café da manhã aqui é quase um almoço com arroz, carne e peixe… e por 4 reias como o suficiente para ficar com fome só no fim da tarde. Durante o dia está muito quente para ficar na rua e normalmente acabo caindo no sono, o ar-condicionado do quarto não estava dando conta do calor mas consegui que me emprestassem um ventilador, melhorou bastante. No final do dia quando a temperatura fica mais amena consigo ir até a praia dar uma segunda caminhada além de uma olhada no por do sol, já à noite procuro um lugar para comer. Se eu for novamente nas barraquinhas de street food um jatar irá me custar mais 4 reais, já se eu for em um restaurante para comer um prato de verdade sai por uns 30 reais. Depois disso volto para o hotel a tempo de pegar o povo no Brasil acordando (são 13h de diferença) e troco umas ligações ou mensagens de WhatsApp.



Café da manhã com cara de almoço, por R$4 fica fácil continuar IF!rs



   Assim tem sido minha rotina, como disse acho que o hotel é quem está causando mais desconforto e arrastou meu padrão de vida para baixo. Os preços de locação de imóveis ou Air B&B por aqui e na Australia estão nas alturas e já me preocupo onde irei morar com a Srta.IF para não ter que expo-la à esse choque que é a queda brutal no padrão de vida. É sempre muito doce o gostinho de quando subimos nosso padrão de vida, mas quando temos que aceitar que ele caiu o gosto passa a ser bem amargo, ainda mais quando a queda acontece de maneira brutal como foi essa semana.


Sr.IF