Nada mais me surpreende...

Antes de entrar na reflexão de hoje gostaria de deixar claro que não sofro de depressão (ou pelo menos não sofro mais de depressão) e que o que vou relatar parece ser meio que um consenso e regra geral para quem já atingiu uma certa idade, pelo menos é isso que eu pude constatar conversando com os amigos da mesma faixa etária que eu.

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   Não é de hoje que notei como nada mais é realmente novidade pra mim, parece que depois dos 40 anos uma pessoa já meio que não só viveu quase todo tipo de experiência que um ser humano pode viver mas também consegue prever como serão futuras experiências que ainda estão por vir… por exemplo, já faz muito tempo que não me surpreendo mais com um prato de comida, por mais chique que seja o restaurando só de ler o cardápio já sei qual será o gosto da refeição que o garçon irá trazer. Não estou dizendo que a comida passou a ter um gosto amargo na minha boca mas sim apenas constatando que uma refeição por mais elaborada que seja dificilmente irá me surpreender já que churrasco tem gosto de churrasco, pizza gosto de pizza, massa de massa, peixe de peixe, etc…





   Apesar do exemplo esdrúxulo acima o mesmo vale para outras situações na vida, devido ao meu trabalho tive o privilégio de conhecer uma enormidade de países e sempre que chegava à um lugar novo me batia aquela curiosidade de explorar o local mesmo que fosse apenas por uma tarde, mas comecei a notar que depois de me surpreender com algumas belas catedrais na Europa tudo se tornou repetitivo, hoje quando vejo que a principal atração turística do lugar é uma igreja construída séculos atrás eu já sei oque irei vivenciar antes mesmo de chegar ao local. O mesmo acontece com as praias paradisíacas quer visitei aqui na Austrália com suas areias branquinhas, mar azul e verde por todo lado… por mais fantásticas que sejam essas praias elas nunca irão superar a sensação que tive quando vi pela primeira vez as praias de Ubatuba no litoral norte de SP. Até então eu tinha crescido frequentando as praias da região de Peruíbe com suas aguas turvas e areia escura, nunca vou esquecer quando pisei pela primeira vez nas areias branquinhas e mar azulzinho do litoral norte do estado, nunca poderia imaginar que a agua do mar podia ser tão cristalina a ponto de eu conseguir ver peixes nadando ao meu redor! Acho que tinha uns 10 anos nessa época, e hoje com mais de 40 nem as águas das praias nas Maldivas conseguem me trazer de volta aquela sensação gostosa que tive quando criança.


   Acredito que tudo que descrevi seja um processo natural do envelhecimento, mas não raro me pego imaginando se eu não nasci na época errada… isso porque parece que tudo já foi descoberto, nada mais é novidade! Em época de internet onde o mundo inteiro foi mapeado pelo Google me dá uma preguiça danada de me deslocar por milhares de quilômetros só para visitar um ponto turístico que está disponível para ser visto através do meu celular. Gosto muito de museus e as vezes me dá uma inveja danada das pessoas que viveram alguns séculos atrás onde visitar um parente que morava em outra cidade já era uma aventura danada, ou então fazer uma viagem atravessando o oceano era comparável à uma viagem para marte nos dias de hoje. Tudo era mais difícil e consequentemente mais surpreendente e gratificante.


   Estou no final da minha viagem pela Austrália, percorri mais de 6 mil quilômetros em pouco mais de dois meses… coisa que os exploradores antigos levariam séculos para desbravarem eu “desbravei” em semanas, e devido à “overdose de novidades” as vezes visitei lugares que por si só valeriam um jornada exploratória mas que em minha mente eu pensava “legal, mas é só isso que tem para vivenciar?”. Não sei você, mas acho que estou ficando velho e com saudades daquela sensação de ser surpreendido pelo mundo à minha volta, ainda mais agora com tanto tempo livre para brincar de explorador…rs


Sr.IF

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