Viver viajando não é para mim...

   Acredito que se for feita uma pesquisa entre os integrantes da comunidade FIRE 99,9% dos entrevistados irão responder que um dos seus grandes objetivos após conquistar a Independência Financeira é o de viajar. Seja por terra, ar ou mar parece que o sonho de percorrer o mundo é um denominador comum que une todos os aspirantes à FIRE, inclusive eu! Você até pode pensar que o Sr.IF depois de duas décadas viajando à trabalho só quisesse saber de passar o resto da vida quieto no seu cantinho, mas a verdade é que eu me incluo nesses 99,9% das pessoas que desejam viajar pelo globo e aproveitar a liberdade que a independência financeira tem a oferecer, e foi justamente isso que eu fiz nesses primeiros quase 6 meses de IF. Desde que deixei meu emprego em meados de janeiro coloquei o pé na estrada e literalmente fui até o outro lado ao mundo para explorar um pouco da Austrália e posteriormente Bali antes de retornar ao Brasil (forçadamente). Foram 6 meses de altos e baixos onde pude vivenciar um novo estilo de vida em que literalmente “vivi na estrada”, entre as constantes mudanças de cidades ou mesmo países eu e a Srta.IF chegamos à uma conclusão… esse tipo de vida não é para nós.





   Não me entenda mal meu caro leitor, viajar é ótimo mas voltar para casa é melhor ainda. Uma coisa é você fazer uma viagem sabendo que no final dela voltará para o conforto do seu lar, outra bem diferente é colocar o pé na estrada sem data ou mesmo lugar para voltar. E foi mais ou menos nesse tipo de vida que eu me lancei inicialmente, ao deixar o país onde trabalhava parei de ter residência fixa e consequentemente um lugar para chamar de meu. Quando se sabe que existe um lugar melhor para se retornar fica bem mais fácil aceitar os perrengues da vida na estrada uma vez que sempre resta o consolo de que "isso aqui é temporário". Romantizei a liberdade de viver cada semana em um lugar diferente mudando de cidade em cidade acreditando que bastava dinheiro no bolso que tudo estaria resolvido, ledo engano! A sensação de insegurança por não saber exatamente onde estaríamos morando na próxima semana, juntamente com os altos e baixos dos diferentes lugares que nos hospedamos, somado ao desconforto de ter que fazer a mala e começar do zero em outra cidade acabou cobrando seu preço. Chegou uma hora que cansou… para você ter ideia até uma coisa prazeirosa que é comer em um restaurante virou um fardo, devido à falta de infraestrutura dos Air Bnbs que alugamos em Bali nos vimos obrigados a fazer praticamente todas as refeições na rua, café da manhã, almoço e janta… parece bobagem mas pare por um minuto e tente imaginar que você tem que sair de casa todas as vezes que deseja fazer uma refeição, é um saco não é mesmo?


   Enfim, chegamos à conclusão que queremos sim viajar mas não queremos viver viajando. Por mais glamuroso que possa parecer sair pelo mundo sem destino, a verdade é que dificilmente você irá conseguir relaxar pois os problemas não param de pipocar o tempo todo. A começar que “viver dentro da mala” é extremamente desconfortável, consegui a façanha de colocar minha vida inteira dentro de duas malas de 23kg cada uma, ou seja todos os meus pertences hoje cabem dentro das duas malas de viagem que levei para Bali. Obviamente eu tive que me desfazer de muita coisa que uma hora acabou fazendo falta, desde um alicate para consertar alguma coisa que quebrou até aquele casaco mais grosso que ocupa muito espaço na mala. Acho que os minimalistas estão orgulhosos de mim mas lá no fundo minha vida tem sido bem desconfortável pois nem conseguir arrumar um simples parafuso solto na porta do armário eu consigo porque não tenho uma mísera chave de fenda.


   Meu histórico de viver de forma precária e desconfortável já vem bem antes da IF, começou quando decidi deixar o país e ir trabalhar no exterior, eu morava em uma casa espaçosa e confortável mas quando cheguei ao deserto tive que me contentar com um apartamentinho pequeno e escuro em que a empresa me colocou, passei 5 anos morando nele e acabei me acostumando… como “cavalo dado não se olha os dentes” não vou reclamar, mas não teve um único dia em que eu não sentisse saudades de acordar na minha própria cama no Brasil. Hoje essa casa ainda está alugada e não pretendo tirar o inquilino para morar nela, então não será agora que voltarei a ter o conforto de morar bem uma vez que estou instalado na casa vazia dos meus pais, que por enquanto ficarão morando em Portugal. Situação que não é ruim mas ainda sim desconfortável.


  O processo de ajuste à nova vida pelo visto ainda vai longe, praticamente descubro coisas novas a meu respeito todos os dias e uma delas é que não desejo viver na estrada, prefiro ter o meu cantinho onde quer que seja e de lá fazer viagens de tempos em tempos quando der vontade. Por mais legal que morar em diversas partes do mundo possa parecer, a realidade e a logística da coisa é bem diferente doque imaginamos... pelo menos no meu caso. Não descartamos ainda a possibilidade de copiar meus pais e viver em um motorhome em Portugal, mas dado ao trauma do meu início de IF vou com calma e quem sabe fazer uma viagem mais curta e testar esse estilo de vida. Eles adoram a vida na estrada mas no momento eu não me vejo curtindo esse tipo de coisa.


Sr.IF

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